Então, primeiramente deixarei bem claro que os textos que vou postar não são de minha autoria. Quem os escreve é o menino da foto, meu amigo Guilherme, 17 anos e que mora em Curitiba - PR.

O conto de hoje se chama: Últimas palavras.
Boa Leitura, Queens ;-)
Estou sentindo muitas dores, em diversos lugares do corpo... Meus sentidos parecem estar cada vez mais ofuscados... Não consigo enxergar direito... Tudo dói... Tudo está cinza, escuro... Meu nome é Arthur, pelo menos é isso que minha fraca memória no momento me diz... Sei que sofri um acidente um tanto grave de carro. Ou será que foi muito grave? Não me lembro de absolutamente nada no intervalo de tempo entre a batida e agora, não faço a menor idéia de quanto tempo se passou desde o incidente. Creio que não seja muito, senão já teriam me levado para um hospital. Ou será que já estou num? A julgar pela frieza do chão, parece ser asfalto, e aparentemente há muitas pessoas e luzes ao meu redor... Não consigo ouvir direito... Quero saber o que está acontecendo, tento me levantar, mas minhas pernas parecem não querer obedecer minhas ordens e doem... Doem como nunca doeram antes... A dor vai diminuindo aos poucos, mas eu sei que ainda estão lá. Quem sabe, eu estou morrendo. Até que uma morte agora viria a calhar, para me ver livre desse turbilhão de dúvidas e dores no meu corpo... Muita coisa passa pela minha cabeça agora, ainda estou pensando no que ocorrerá após a batida e estou imaginando como está meu corpo, não consigo nem ao menos abrir os olhos direito... E agora, estou lembrando de meu filho... Meu grande filho... Ano passa ele completará 18 anos de idade, roubava meu carro nas madrugadas para levar as menininhas para motéis... Que menino levado... Daria tudo no mundo para poder lhe dar um último abraço, sentir seu hálito, sua respiração. Pra falar a verdade, adoraria sentir qualquer respiração. Para que pudesse lembrar como é boa a sensação de ter uma respiração saudável... Minha respiração dói. Dói demais. Parece que tem fogo dentro de meus pulmões...
- Levem-no para um hospital, imediatamente. Ele precisa de cuidados.
Consegui distinguir isso, de um homem muito próximo de mim, talvez encostado a mim. Senti que meu corpo estava sendo erguido por alguns homens, e isso doía. Doía muito... Tenho vontade de gritar de dor, mas minha fala parece estar tampada. Quero pedir para que parem... Parem... Por favor, estão me matando. Um homem parecia estar tentando entrar em contato comigo, pelo que pude ‘’ observar ‘’, ele estava com o rosto muito perto do meu, seus lábios pareciam estar em movimento... Ou seriam as sirenes piscando incansavelmente ao redor do local? Tudo parecia girar... Tudo... Tudo estava ficando cada vez mais sombrio... O Homem (ou as sirenes) ficou totalmente ofuscado... Não passava de um vulto na escuridão da noite... E, aparentemente, adormeci.
- Façam o possível para salvar meu pai, por favor! Eu o amo... Por favor... Pai? Você acordou? Pai!
Esse é meu filho, Mathews. Parece que estou em constante movimento... Estou dentro de uma ambulância, sem dúvidas. Meu filho estava agora segurando minha mão, falando coisas de que eu não conseguia entender absolutamente nada.
Eu sabia. A hora estava chegando.
Eu tinha de dizer ao meu filho o quanto o amo.
Eu preciso.
Respirei o mais fundo que pude, agüentando as fortes dores nos pulmões, e formulei cada palavra que diria ao meu filho em minha cabeça, se é que ainda tinha capacidade o suficiente para isso, no estado em que me encontrava. Tremia só de pensar na terrível dor que será pronunciar alguma palavra, se eu conseguisse. Mas a dor de morrer sem ao menos dizer ao meu filho que o amo, era insubstituível.
Abri levemente os lábios, forcei, mas nada saiu... Apenas dor... Preciso falar minhas últimas palavras para ele... Meu filho... Meu maior tesouro... Minha melhor lembrança...
- Ele está forçando. Pare Arthur, pare de forçar! Isso vai matá-lo! Mathews o acalme! Ele não pode forçar!
Ignorei totalmente a advertência que o homem fizera, ou pelo menos foi o que entendi que ele dissera... Forcei mais dessa vez, e senti que consegui pronunciar algum sussurro... Imagino que para os outros presentes, foi como quase nada, mas para mim... Fiquei totalmente sem fôlego, novamente.
Foi então que eu vi que não seria possível. Não conseguia mover absolutamente nenhuma parte de meu corpo... Meu último suspiro fora dado... Eu sabia que iria morrer... Estava pronto. Foi então que ouvi as palavras mais bonitas, significativas e importantes da minha vida, vindas diretamente de meu filho... Eu estava apagando aos poucos... Senti um leve aperto na minha mão. Havia lágrimas escorrendo pelas mesmas... Meu filho disse, chorando:
- Eu te amo pai. Você é meu herói.
Essas foram as últimas palavras que consegui distinguir em vida. Parecia que alguém lá encima, o nosso Deus, me fez recuperar os sentidos por aqueles segundos, assim eu pude entender e digerir o que meu filho dissera, de tal forma que, mesmo em vida ou morte, fosse inesquecível. Eu também o amo filho!
Espero que tenham gostado e que comentem o que acharam =*
@jessmalisak
por
Jéssica Malisak
| 30.11.1999 | 00h00min